Naquela manhã, despertara com uma sensação diferente, seu coração parecia dar-lhe um aviso de que logo estaria diante de algo nunca antes experimentado.
Abriu a janela do quarto simples mas tomado do frescor e do perfume das orquídeas ainda umedecidas pelo orvalho matinal, e deixou-se sentir um pouco mais aquele turbilhão de benevolência que lhe invadia naquele instante.
Sentiu então o cheiro do café recém passado, e da farinha de milho sendo cozida, era certo... estava atrasada...
...
Maria Aparecida acabara de fazer dezoito anos, era bela, cabelos ondulados caindo sobre a face levemente morena, ressaltada por olhos cor de mel, de estatura mediana, era sabido pelas redondezas que alguns pretendentes já se animavam a cortejá-la, contudo, o modo sisudo como lidava com os rapazes os desencorajavam a tentar qualquer aproximação, de fato ainda não tinha despertado dentro de si o interesse pelo sexo oposto, nas missas divertia-se com o sotaque alemão do padre Durval, nas festas ria-se das competições tolas travadas entre as donzelas e recusava qualquer dança, nos passeios contentava-se em ver as crianças a brincar, porque isso sim, adorava-as. Mas pudera, com muito sacrifício D. Mariquinha, sua mãe, lhe havia feito professora, lecionava em uma das fazendas da região.
...
Ao descer as escadas do velho sobrado deparou-se com os resmungos de D. Mariquinha, era uma senhora boa, mas um tanto exigente e ranzinza.
_ Como dormiu a princesa da província! Já ia pedir que a criada levasse seu café na cama!
Aparecida sabia como derreter o coração daquela rabugenta. Com um beijo em sua face, quase melodiou.
_ Ah mamãe! Tive sonhos tão lindos que foi difícil deixá-los...
_ Vives a fantasiar! O correto seria eleger um bom partido, daqui a pouco vais virar uma solteirona!
_ Oh mãezinha... Que problema teria hein? Me contento muito bem assim!
_ Santo Deus de misericórdia! Preferiria morrer!
_ Ah! Ah! Ah! Mamãe!
_ O que acontece com vocês duas? Logo Betinho levanta, venham a mesa me ajudar!
Esta era D. Lídia, a avó de Aparecida, muito bondosa e calma, era alguém com quem a jovem podia sempre contar para falar sobre alguns segredos da vida.
Em seguida descia o tio, Alberto, que todos conheciam por Betinho, era funcionário do Banco de Sete Lagoas, e até então não casara, fora noivo alguns anos de uma senhorita que falecera vítima de rubéola quando a data do casamento já havia sido estabelecida.
...
Sentados a mesa do café, ouviram cascos de cavalo se aproximando, era o correio chegando. Berenice, a criada que mantinham apenas em troca de abrigo e alimento correu a porta como se abelhas a estivessem perseguindo.
_ Tem carta D. Lídia! E é da capital!
_ Ora Berenice deixe de espanto e dê cá! Falou a impaciente Mariquinha.
_ É do primo Leonardo! Ora veja!
_ Abra logo mamãe! Leia!
_ Primo Inácio vai passar um tempo conosco... Ao que parece estão de olho em uma das fazendas da região, ele vem com a missão de sondar as terras... Chega em alguns dias... Ora veja! Esta casa nem parece ser nossa, ele vem não pede resposta, vem e pronto!
_ Mariquinha deixe disso, a casa é da família, sabe muito bem que se não fosse a generosidade de Leonardo estaríamos a mendigar. Desde que seu marido morreu, só restaram dívidas e se não fosse por Leonardo Aparecida nem teria se formado professora.
_ Pois eu fico muito feliz, quem sabe agora não terei a possibilidade de uma colocação melhor. Disse Alberto.
Aparecida saldou a todos com um beijo e partiu, a carroça da Fazenda S´Antana já a esperava.
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